A vida dos centros


Como falar da vida e das mudanças de uma cidade cuja população é maior que a de diversos países, cujos limites territoriais já não são nítido ou fisicamente identificáveis, e cuja densidade faz da vida um fluxo constante de mutações, adaptações, disputas e encontros sempre inesperados?

O projeto para o livro A Vida dos Centros começou há três anos, como uma pesquisa e projeto de arte que partia do desejo de olhar para a cidade, suas mudanças e os seus desequilíbrios. Mas minha intenção era fazê-lo de modo que fatos e informações oficiais dialogassem com outras histórias, narrativas, relatos e memórias daqueles que viveram a cidade e seus ciclos de mudanças.

O foco residiu, então, em explorar três regiões da cidade de São Paulo que são consideradas como centrais em diferentes períodos e por raízes diversas: o Centro histórico, a Avenida Paulista e a Avenida Berrini. Guiado por depoimentos de trabalhadores que passaram grande parte de suas vidas profissionais nestas áreas e pesquisando material iconográfico em acervos diversos, busquei reunir no livro observações sobre os ciclos históricos e fluxos de progresso sofridos por essas regiões da cidade num período de quase 40 anos. É nesse sentido que optei por olhar a cidade através dos ‘olhos de outros’ que não apenas os meus, abordando áreas centrais da cidade, outrora locais de trabalho, lazer e vida (quando São Paulo era uma urbanidade menos fraturada). Juntamente a esta opção, coexistiam minhas próprias memórias da cidade, já que desde pequeno seguia constantemente à São Paulo com meu pai, onde ele trabalhou (em todas as três áreas centrais que abordo no livro). A experiência destas entradas e saídas da cidade foi também parte o motor que impulsionou o projeto. Outras experiências marcantes foram a produção do filme São Paulo City Tellers, dirigido pelo artista italiano Francesco Jodice em 2006 para a 27a Bienal de São Paulo; e o envolvimento em 2005, através de um coletivo, com os movimentos sociais que lutam por moradia na cidade. Olhares estrangeiros me deram a dimensão do interesse, da riqueza e das discrepâncias do modelo urbano resultante do crescimento da cidade de São Paulo. E os olhares locais, daqueles cuja vida é um embate constante com a cidade, me abriram o horizonte sobre as mazelas que assolam esse modelo de desenvolvimento, que parece se propagar por todo o país.

Durante o período de pesquisa e produção do livro, tomei contato com rumores, histórias e com um vasto material documental em acervos e arquivos diversos. Não é necessário dizer, então, que muito material documental ficou fora do livro dadas sua limitações inerentes. É este fato que me impulsiona agora a pensar em desdobramentos para o projeto, numa continuidade da pesquisa e de suas materializações possíveis em outros contextos e momentos. Existem registros fílmicos (oficiais e amatoriais) que documentam e representam momentos extremamente interessantes das mudanças da cidade. Há ainda vasto material iconográfico que aborda a cidade e suas drásticas mudanças.

Um outro fator inesperado que surge da produção do livro é a função que este assume: além de ser um veículo que reapresenta certas histórias e imagens, ele parece provocar e ativar lembranças esquecidas naqueles que viveram uma cidade diferente. O livro (sua narrativa textual e edição de imagens) passam a funcionar como um dispositivo ativo, de recuperação de memórias, fatos e lembranças… ele não apenas representa histórias, mas as faz emergir. O registro dessas ‘vozes e memórias’ constituem assim uma outra esfera de interessantes ‘documentos’, ainda que informais.

Fatos, memórias e trajetórias baseada em personagens reais combinam-se, no projeto, para produzir em um ensaio fotográfico docu-ficcional. Deste encontro, surgem narrativas e leituras sobre mudanças urbanas, arquitetônicas e políticas que tocam tanto em aspectos pessoais, como em outros de natureza pública e social. O conjunto apresentado no livro é um recorte, talvez um rico ponto de partida. Certamente é uma edição de memórias, documentos e imagens que retratam certas transformações da cidade, assim como histórias que, talvez, ainda animem a vida desses centros.

A Vida dos Centros, org. Beto Shwafaty. 152 págs. Ed Olhares, 2013.
Lançamento dia 1 de abril de 2013, 19h-21h30, Livraria da Vila (Al. Lorena, 1731)
Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural 2011.

Editor responsável por esta publicação graziela kunsch - revista urbânia
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