História de um presente improvável

Imagine uma enorme intervenção urbana em Belo Horizonte. A maior das últimas décadas. 35,4 km de extensão, 100 bairros e mais de 3,5 milhões de pessoas impactadas. Uma reinvenção contínua saindo do centro e chegando no aeroporto, ao norte.

Imagine essa enorme intervenção como uma estrutura híbrida, estranha e indefinida. Nem ponte, nem prédio, nem praça, nem viaduto, nem avenida, nem rua, muito menos parque. Um pouco de tudo, mas diferente também. Uma ecologia infra-estrutural radicalmente transformadora dos lugares por onde passa.

Imagine que essa estrutura, de fazer inveja aos arquitetos, urbanistas e artistas mais visionários, tivesse dois únicos níveis: um térreo, sempre acompanhando as ruas e avenidas por onde se instala, e o terraço, plataforma linear e contínua que cobre o térreo e se abre para o céu, às vezes formando pátios, rasgos, planos inclinados. Ao longo de sua extensão, entretanto, esses dois níveis se interpenetram e se interrompem se necessário, numa topografia singular onde território e estrutura se misturam, incorporando as particularidades e mesmo as contradições dos mais variados contextos atravessados. Uma linha, mas não como um ato abstrato e genérico, e sim um conjunto de segmentos diversos e particulares.

Imagine que essa estrutura tivesse como objetivo costurar vizinhanças, bairros, áreas e regiões inteiras cindidas por outras intervenções historicamente equivocadas como vias expressas, trincheiras e viadutos. E, à medida que avançasse sobre esse território desolador e brutal, inauguraria uma miríade de possibilidades aparentemente solapadas pelo cinza, pela velocidade e pela fumaça. O que o asfalto e o concreto separaram, um ecossistema inteiramente artificial re-alinhavaria.

Imagine: bosques densos de mata atlântica, jardins selvagens, hortas cuidadosamente cultivadas, pomares aromáticos, campos de cerrado, praças sombreadas, quadras poliesportivas, campos de futebol gramados, coretos, laguinhos, lagoas, tanques de pesque-e-pague, pista de corrida, calçadas para caminhada, bibliotecas públicas a cada km (será uma boa distância?), banheiros públicos, livrarias, bares, cafés, escolas-clubes, piscinas pequenas e rasas, piscinas fundas e olímpicas, piscinas com deck, ciclovias, pistas de skate, bicicross, espaços para eventos grandes e pequenos ao ar livre e também fechados, churrasqueiras públicas, laboratórios e oficinas para atividades criativas e comunitárias, galerias de arte, postos de atendimento, cibercafés com WI-FI e LAN houses, ambulatórios, cinemas, palquinhos e teatros de verdade, restaurantes grã-finos e populares, botecos, feiras livres, etc. Uma infinidade de atividades, algumas previamente e estrategicamente implantadas e outras impossíveis de planejar.

Imagine, que além de tudo isso essa estrutura ainda funcionasse no provimento de energia elétrica por onde passasse, através das kilométricas pérgolas fotovoltaicas que sombreariam o terraço, e que toda a água e esgoto utilizados nesse complexo seriam recolhidos e ali tratados e reutilizados. O lixo, após triagem, reciclado. Não só o do próprio complexo, mas de todas as adjacências, em plantas de reciclagem transparentemente didáticas e abertas à visitação. Ao ser percorrida, de bicicleta ou de bondinho elétrico (finalmente ressuscitado), poder-se-ia do silêncio do bosque ouvir à distância o burburinho fervilhante do imenso, porém lento movimento da multidão nesse impensável condensador sócio-ambiental. Do alto, das janelas dos apartamentos reabertas depois de décadas e das torres de escritórios envidraçadas, agora cobertas pelas trepadeiras que insurgem desrespeitando os limites da estrutura e escalando as superfícies mais lisas, ver-se-ia claramente: o leito sinuoso, verde e aparentemente sem fim dessa intervenção impressionante mas já familiar.

Pare de imaginar. Nada disso é improvável ou utópico. Nada disso é extremamente inovador ou incrivelmente ousado. Nada disso é exageradamente mais caro do que construir ou desmontar hoje o que sabemos que vamos “revitalizar” num futuro próximo . Isoladamente ou em agrupamentos diferentes, todas essas atividades, tecnologias, estratégias, espacialidades existem e já foram realizadas, em algum lugar (muito distante daqui!). Provavelmente como reparo histórico a violências tectônicas daquilo que engenheiros insistem em chamar de “obras-de-arte” e políticos de “benfeitorias”, e que estamos sempre prestes a inaugurar.

Editor responsável por esta publicação coletivo editorial PISEAGRAMA
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Postado em Belo Horizonte.

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