Brasília: (Cidade) [Estacionamento] (Parque) [Condomínio]

Fomos a Brasília em busca de criar um Guia Afetivo do Centro. Mas o que é o centro daquela cidade? Durante as derivas que realizamos, nos deparamos com várias situações que deslocaram nossa percepção e nos levaram a leituras gráficas, poéticas e possíveis. Leituras feitas por uma dupla de artistas que estiveram ali de passagem – numa  cidade que nasceu de um desenho-projeto e se recria no cotidiano: Brasília: (cidade) [estacionamento] (parque) [condomínio]; mas também: tipografia, percursos, geometrias, planos, trilhas não oficiais.

Os trabalhos do Poro criados em Brasília se referem a recortes da paisagem e pequenos detalhes do cotidiano. Foram fruto de quem caminha pela cidade e se depara com situações ora simples, ora inusitadas. Passantes que tiveram seu olhar desviado pelo estranhamento em relação a outras experiências de cidade. Não são leituras definitivas nem têm a pretensão de abranger toda a cidade (ou tudo o que é a cidade), mas tentam ressignificar alguns de seus fragmentos. São trabalhos fruto de uma espécie de cartografia despretensiosa, feitos a partir dos encontros e acasos que tivemos.

Situações Brasília

Este trabalho surgiu de percepções que tivemos durante nossas caminhadas pela cidade. Enquanto andávamos fizemos uma série de anotações: desenhos, textos, fotografias. Nossa busca era por situações que sintetizassem aspectos da cidade de Brasília. Nos interessava tudo aquilo que fugia de uma lógica cartesiana, tudo que “desconstruía” o planejamento. Entendemos que as cidades são orgânicas e nos interessava vivenciar de perto os desvios e atalhos de um lugar onde o planejamento urbano num primeiro olhar é onipresente.

Dentre as diversas situações que encontramos, escolhemos quatro, com as quais desenvolvemos uma série de cartazes. Esses cartazes foram apresentados dentro do espaço expositivo em forma de lambe-lambe (colados em série na parede) e ficaram disponíveis em pilhas sobre quatro mesas tipo “camelô” para que o visitantes levassem os impressos para onde quisessem.

Cidade Estacionamento

Brasília foi construída quando o automóvel ainda significava modernidade. É uma cidade que surgiu voltada para os carros, com suas grandes avenidas e distâncias a serem percorridas. Seu desenho urbanístico e [apenas recente] modelo de transporte público, faz com que seja uma cidade onde é bastante difícil viver confortavelmente sem um automóvel. Para onde se olha, se vê um carro.

Contrastando com os dias úteis quando as ruas estão cheias e grandes áreas ficam preenchidas por carros parados, tivemos uma surpresa ao chegar na Esplanada dos Ministérios no fim de semana e não encontrar quase nenhuma pessoa ou carro. Ressaltando a potência gráfica das marcações dos estacionamentos, fizemos um ensaio fotográfico com essas raras imagens de enormes áreas vazias.

A partir deste trabalho, iniciamos um levantamento das tipologias dos estacionamentos, catalogando os desenhos e diversas configurações. Percebemos que ali existia um verdadeiro “alfabeto” urbano. Comum a qualquer cidadão, mesmo aqueles que não possuem carros. Foi aí que tivemos a ideia de criar uma tipografia digital, cujo desenho tipográfico seria esse alfabeto dos estacionamentos:

Cidade Parque

Mas Brasília, não é só carros, velocidade e distância. É também uma cidade-parque com inúmeras áreas verdes e espaços públicos espalhadas por toda a mancha urbana. Nós que adoramos um picnic sempre nos impressinamos com aqueles grandes gramados. Mas percebemos que poucas pessoas utilizam esses lugares. Daí pensamos em produzir alguma ação que estimulasse as pessoas a ocuparem essas áreas e/ou que propusesse outros olhares sobre eles.

Brasília é uma cidade setorizada, há setores de Indústrias Gráficas, de Diversões, de Mansões, de Embaixadas, de Igrejas e por aí vai…

Pensamos em “criar” novos setores para a cidade, propondo (ou marcando) usos para as áreas verdes da cidade. A partir do design das placas de sinalização existentes em Brasília, criamos uma série de placas para “demarcar” novos setores para a cidade: Setor de Respiro, Setor de Imaginação, Setor de Contemplação, Setor de Ócio etc. As placas foram colocadas em diversas partes do plano piloto e arredores. Algumas ainda sobrevivem instaladas.

Brasilia é uma cidade que no primeiro momento assusta por sua monumentalidade e geometria moderna. Durante as caminhadas, o sol não deixa esquecer a secura e a aridez do cerrado. As perspectivas se alongam. Os pátios de cimento refletem tanta luz que quase apagam a lembrança de sombras de árvore. Os pedestres e errantes agradeceriam se aqueles deliciosos corredores arborizados das superquadras se espalhassem por toda a cidade. Nada é tão longe (ou tão perto) quanto parece. O ruído do trânsito serve de pano de fundo para uma paisagem quase monótona de carros passando ao longe. Se em muitas partes há o vazio, no encontro dos Eixos há a multidão, chegando ou partindo para as satélites superpovoadas.

Conforme se convive com a cidade, vendo-a mais de perto e vivenciando seu dia-a-dia, nos deparamos com uma Brasília onde existe muita diferença nos lugares que a princípio pareciam padronizados. Meio ao rigor do plano arquitetônico se encontram transformações, usos e abusos. Públicos e privados. Deixando a cidade mais maleável e porosa. Redesenhando utopias, tencionando interesses de diversas ordens.

Brasília se mostrou super interessante e cheia de potencialidades gráfico-poéticas. Para conhecer uma cidade é preciso mergulhar em seu cotidiano.

Definitivamente: de perto, uma cidade não cabe no mapa.

Para ver mais imagens dos trabalhos realizados pelo Poro em Brasília e baixar o catálogo da exposição, clique aqui.

Sobre o Poro
O Poro é uma dupla de artistas formada por Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada!. Atua desde 2002 na realização de intervenções urbanas e ações efêmeras que buscam discutir sobre os problemas das cidades através de uma ocupação poética e crítica dos espaços. www.poro.redezero.org

A exposição Brasília: (Cidade) [Estacionamento] (Parque) [Condomínio] aconteceu entre 13/12/12 e 21/01/13 na Galeria Fayga Ostrower na Funarte. E foi contemplada com o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2012.

Editor responsável por esta publicação Brígida Campbell - Poro + revista Refil + revista Nuvem
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