Leibniz e Darwin em Afuá

Quem chega à Macapá por aeronave (um dos únicos meios para quem vem de longe) e tem a sorte de chegar nos únicos dois vôos que aterrissam à tarde, tem o incrível privilégio de, tendo partido de Belém, sobrevoar e contemplar do alto os campos alagados e as ilhas do arquipélago de Marajó, onde a hercúlea mata amazônica, repleta de grandes sumaúmas, angelins e de todas as mais belas variedades de palmeiras, se abre respeitosamente, reverencialmente, através de incontáveis canais, para que o rio corra, cortando-a, rumo a seu grande fim (finalidade e término): o encontro com outro gigante, o Atlântico.

Aterrissando, desembarca para a pista abatida por tórrido sol, em especial nos meses de verão, e caminha até a modesta sala de embarque do pequenino aeroporto. De lá, mesmo que parta para o recém-inaugurado hotel-padrão, climatizado e geneticamente igual à todos os da rede, ou que vá aos mais tradicionais (tendo a sorte de ganhar uma vista para o Rio Amazonas, no Santa Inês), o visitante não percebe que chegou à uma cidade amazônica.

O mesmo não ocorre ainda nas cidades amazônicas, por maiores e mais cosmopolitas, metropolitanas (para o bem e para o mal) que sejam: mesmo que em Belém ou Manaus shoppings e equipamentos urbanos padronizados os haja em quantidade, a feição dessas cidades, o aspecto e o portar de seus transeuntes, a trilha sonora e os odores e cores, sabores e produtos que tomam as ruas, são únicos, e revelam que o viajante que flana por suas ruas e avanidas encontra-se numa cidade incrustada no meio da Amazônia, de modo que, se a cidade invadiu, tomando de assalto a selva, esta dá o revide e a invade (especialmente na Manaus do inverno, onde o Negro toma de volta tudo o que lhe é de direito).

Mas Macapá é uma capital amazônica sui generis. A começar pela estrutura de sua trama viária, extremamente retilínea e quadrangular, revelando forte e racional planejamento calcado na idéia de tábula rasa, passando pela largura destas avenidas e das possíveis calçadas (que quase nunca se realizam como tal), o viajante só se lembra que está numa cidade amazônida quando, seguindo uma dessas retas avenidas, esbarra com o Rio em toda sua magnitude, e pode contemplá-lo ao lado de seu belo vigia: a Fortaleza São José de Macapá. Àqueles intrépidos que a cidade dá o privilégio de permanecer por mais de alguns dias ou meses, residindo na cidade, é facultado o prazer da descoberta (como ocorre em toda cidade, aliás): e se depara com as casas de madeira avarandadas, pequenas, sobre palafitas, em plena região central; as pontes, também de madeira, esguias ruas de palafitas sobre “os baixos”, as “ressacas” que o Rio alaga quando o Mar, um tanto sentimental, barra-lhe as investidas com a cheia de sua maré.

Mas vagar pelas “pontes”, ao mesmo tempo em que é uma experiência inenerrável, permite ao observador atento assombrar-se com a cisão entre natureza e cultura consagrada pelo Urbano moderno, mas de uma forma incrível por Macapá: ao lado das edificações com ares modernos, todas envidraçadas, climatizadas, imitando o estilo pomposo-empresarial dos grandes prédios que assediam cidades como São Paulo, existem terrenos baldios abandonados não só ao mato como à especulação mais aguda, atrás dos quais se vê belíssimos, apaixonantes, buritizais alagados que filtram o sol em toda sua dureza, permitindo que se coe por suas folhas e esbarre no fino espelho d´água que os sustenta e reflete, reproduzindo-os.

Moradores da cidade há, no entanto, que nunca provaram um pedaço de pirarucu. Que desconhecem a diferença entre um tucunaré e um surubim. Que não sabem a diferença entre uma bacabeira e um pé de açaí. Dentro de suas modestas edificações (todas climatizadas), eles se valem de um ideal de urbanidade e de progresso tão cruel quanto exótico, e, devo dizer, nocivo: longe de podar as agradáveis mangueiras que proliferam pela cidade acolhendo os transeuntes sob sua sombra alegre, dando-lhes frutos doces gratuitamente como num sonho rousseauniano, eles as “toram”: cortam, extirpam, eliminam.

O “mato” que invade os arredores das casas cobertas com escaldante amianto (símbolo tradicional de status na Amazônia inteira, à época em que, saídos dos seringais os hoje caboclos ainda construíam suas elegantes habitações com cobertura de palha) é simplesmente subsumido, e as avenidas e ruas, impressionantemente largas, que poderiam ser tomadas por mangueiras e cheirosos pés de cupuaçu, são assoladas pelo sol mais equatorial do Brasil (já que Macapá é a única capital cortada pela linha do Equador). Isso faz de Macapá uma metáfora do Brasil: como no poema Pneumotórax de Manuel Bandeira, toda uma vida que poderia ter sido, e não foi.

Assim como o Brasil parece ter se desenvolvido de costas para a América Latina, contemplando primeiramente a Europa, e depois os Estados Unidos, com avidez, Macapá parece ter crescido de costas para a Amazônia, contemplando com inveja, pela televisão, os grandes centros urbanos. Edificada em torno da Fortaleza São José de Macapá, a cidade possui uma história tão singular quanto o Estado, que até 1988 era território federal. Erguida sobre um platô alto cerca de 2m de altura em relação ao Rio, ela se espraiou por um bioma que poucas pessoas sabem que existem na Amazônia: o cerrado. Povoada por forasteiros que se relacionaram de forma colonizadora com os indígenas e recursos locais, a região toda foi tomada de pronto por garimpeiros febris por ouro e madeireiros ávidos pelas cédulas que cada folha poderia produzir.

Em Macapá houve um processo contrário ao que houve na cosmopolita Manaus: recebendo incentivos fiscais e injeções fenomenais de capital estrangeiro, a capital do Amazonas viveu era de ouro com o ciclo da borracha (extrativismo, de certa forma), que levou para o meio da Amazônia retirantes flagelados escravizados para que, no Theatro Amazonas, as classes favorecidas pudessem apreciar belas óperas, e gozar a fresca ouvindo gramofones ao apreciar suco de graviola e cupuaçu em suas varandas neo-clássicas. As interações entre os europeus, os japoneses, os nordestinos seringueiros e os indígenas foram se consolidando historicamente de modo a criar uma cultura e uma espacialidade afeita ao contexto, própria a ele, e que se reflete na cidade: cosmopolitismo.

Isso não parece ter ocorrido em Macapá. Ponto de passagem dos garimpeiros que desbravavam os rios pedregosos e de difícil navegação, a cidade encontrou no ouro extirpado das entranhas da terra e na mata deitada abaixo suas únicas fontes de recursos, coroada pela mineração que instalou-se com peso no estado em fins da década de 1970.

O modelo trazido pelos empreendedores da cidade de Macapá foi o da urbanização ocidental predatória, que encontra na cisão natureza/cultura sua pedra de toque: ser índio é ser subdesenvolvido, e morar “no mato” é sinal de involução, atraso. Almejando a evolução, instalou-se no cerrado uma metrópole que, de costas para o Amazonas, mas invadida por ele em suas entranhas, por suas terras baixas, luta como um Sísifo contra cada hera, cada liana, cada árvore, rumo ao progresso, esse mesmo ideal que fez com que, em Progresso, no Mato Grosso (como escreveu Wellington Cançado na edição 2 de www.piseagrama.org), todos os pequenos arbustos da tórrida avenida central fossem extirpados, em nome da urbanização e do Progresso.

Eis porque Macapá, consagrando a estrutura do pensamento de um tempo e de uma sociedade (como toda cidade), pode ser tomada, assim como Progresso-MT, como mais uma maquete em escala real dos valores e posturas epistemológicas das classes dirigentes, pois é nisso que consiste uma cidade: uma fotografia da estrutura de pensamento e das relações sociais que a subsidiam e que ela subsidia, dialeticamente.

Deixando Macapá de barco, deitando-se agradavelmente na rede sobre o convés superior, num elegante recreio, tem-se a sensação de que a negação da “natureza” (e de seus habitantes) em nome da “cultura” (ou seja, do Progresso e da Evolução que culmina em metrópoles que têm nos shoppings a realização máxima dos burgos, (que são a gênese das cidades modernas), percebe-se que tudo o que rodeia e invade a cidade por suas baixas periferias é Amazônia, e a bela e preciosa cultura que nela e por ela desenvolveu-se.

Chegando ao pequeno município paraense de Afuá, sofre-se um choque. Construída completamente sobre palafitas, em madeira, a pequenina e belíssima cidade marajoara é a realização de um modo de viver e relacionar-se com o meio, com o contexto amazônico, de forma inteligente e aperfeiçoada. Orgânica, em todos os sentidos que o termo possa assumir. Pelas “pontes” de madeira que são palafitas, passeia-se de bicicleta (única e exclusivamente, já que o tráfego de veículos automotores é ali proibido por lei municipal) por entre as belíssimas casinhas avarandadas, todas de madeira, pintadas das mais diversas cores, onde o esmero na construção e na decoração revelam a presença cabocla, pois a casa cabocla é tradicionalmente um símbolo de zelo, limpeza, frescor e cuidado.

Assim como nas pequeninas e acolhedoras comunidades ribeirinhas que se espalham pela Amazônia, Afuá é uma ode à vida amazônida: construída sobre as águas do rio que tomam a cidade na maré alta sem mitigá-la, ela convive com o meio, fixando-se nele de forma volátil e, por isso mesmo, perene, ao demonstrar que seus habitantes não apenas conhecem-no muito bem, como fazem um pacto com ele e, aceitando suas regras, lidam com elas naturalmente: cultura. Orgânico.

Das pequeninas varandas das casas entrevê-se o soalho enceradíssimo e reluzente onde crianças se refestelam, descalças no calor da tarde, a comer todas juntas um pedaço de filhote, peixe pescado pelo próprio pai que acabara de retornar com seu elegante batelão com motor-de-centro. Todas comem do mesmo prato, assim como sói nas sociedades indígenas amazônicas. E na casa cabocla.

O esmero da comunidade em zelar, cada qual por sua casa, e todos pelas vias públicas, onde elegantes lixeiras acolhem os detritos devidamente ensacados a serem recolhidos pelo lixeiro – que pedala – permite que se perceba um senso de urbanidade e comunidade que só se encontra nas referidas comunidades ribeirinhas.

Da beira onde se amontoam as belíssimas e delicadas, mas valentes e portentosas embarcações (recreios, batelões, catraias) de madeira, contempla-se o sol que se põe na mata que jaz quase intacta – nunca virgem – há poucos minutos desta cidade que desenvolveu-se a partir de uma vila ribeirinha e que assim soube se manter.

A antropologia contemporânea nos ensina que não há mata virgem: a Amazônia é um grande jardim cultivado por mais de 5.000 anos de contatos e convívios humanos, e a própria dispersão de muitas espécies vegetais e animais se deve justamente à presença humana. Se às sociedades indígenas, em função de seu modo de produção extrativista, foi permitido interagir com este bioma de forma a, mais do que não extingui-lo, cultivá-lo, aos ocidentais que tentaram colonizá-la, domá-la, foi relegado o mais cruel fracasso.

Quantos Fitzcarraldos não pereceram por estas bandas após verem suas quimeras urbanas, civilizatórias, tragadas por aquele mesmo componente que tentaram negar ao domar: a natureza?

Em Afuá, passeando pelas estreitas palafitas que são as ruas, sentando-se nas praças, todas de madeira, sobre as águas, dormindo-se na rede, sente-se o frio típico das regiões onde ainda há mata. Todas as habitações e embarcações são construídas de modo a lidar, conviver com a água que é, assim, o motivo e ponto de partida e de chegada de tudo. Em Macapá, ao contrário, é impossível andar à pé, triunfando o modelo urbano das metrópoles que anulam o espaço público a bem do triunfo do privado: há asfalto (escaldante), para os carros (climatizados), mas não calçadas, para os pedestres.

Uma comparação se faz, então, possível, tendo-se como eixo os modelos de acordo com os quais cada uma dessas cidades, tão próximas mas tão distantes, desenvolveu-se, tendo-se como eixo o modelo de relações (sociais, sobetudo) que subsidia a cada uma: ao negar a natureza, Macapá pretende-se Progresso, evolução; atende a princípios finalistas, ou seja, pressupõe em cada esquina, ou obra particular, a idéia de que tudo deve tender à evolução, ao progresso, ao urbano ocidental moderno, metropolitano.

Ao aceitar a Natureza, por seu turno, Afuá realiza-se como cultura por uma outra via: os homens vivem sobre as águas, constroem seu meio ambiente (e este é outro componente da definição que podemos dar de uma cidade, ou seja, um ambiente construído pelos e para os homens) sem negar o ambiente natural no qual estão inseridos: vive-se em função da Amazônia, em Afuá, uma urbanidade natural, coroando o ideal de adaptação, e não o ideal finalista de progresso e evolução, já que este último, como nos demonstra a antropologia há anos, é um ideal etnocêntrico que impõe o modelo europeu ocidental de homem e relação, modo de vida e de produção (mercantilista, industrial), desclassificando todas as outras modalidades ao considerá-las subdesenvolvidas, atrasadas.

Mas, se buscarmos a origem epistemológica do próprio ideal de progresso e finalismo em um de seus expoentes, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), encontraremos a tese de que o mundo em que vivemos é o “melhor dos mundos”. Leibniz pretendia com isso que o mundo que vivemos é a realização da consciência de um deus arquiteto que criaria tudo numa linha histórica que tendesse ao aperfeiçoamento, à evolução: ou seja, à perfeição, à si mesmo, portanto.

Mas, errando por Afuá, tem-se a sensação de que a tese de Leibniz poderia ser muito melhor aplicada à uma cidade se fizéssemos o exercício de, juntamente com Charles Darwin entender a vida, em sua totalidade, como um constante processo sincrônico, e não diacrônico, de adaptação (ao contrário de evolução e progresso): segundo Darwin, que nunca mencionou a palavra evolução, os seres adaptar-se-iam aos contextos, tornando-se perfeitamente eficientes e afeitos a eles, cada um a seu modo, não havendo uma série histórica que tendesse a um fim, mas sim uma sucessão de contextos repletos de seres extremamente adaptados a eles, ou seja, perfeitos, permitindo que se contemple a vida em todas suas mais variegadas manifestações, sem superpô-las umas às outras de acordo com o ideal de que, quanto mais humanas se pareçam, mais evoluídas serão.

Segundo esta concepção, poderíamos extirpar o finalismo da análise, e entender os seres, as culturas, e as cidades, como perfeitos construtos que, como pretendeu Leibniz, são da forma que são (e não de tantas outras infinitas formas possíveis) porque uma série de fatores concorreu para tal, configurando-se, assim, como os melhores mundos. Possíveis: adendo importantíssimo.

Retorna-se então, de Afuá, com a plena sensação de que aquela é uma cidade plena: totalmente afeita ao contexto em que se insere, ela é um contexto onde uma série de relações são perfeitamente afeitos a ela, encontrando-se em um estado de adaptação e sustentabilidade que Macapá e outras metrópoles não encontram, porque não são sustentáveis, e porque são sustentadas e sustentam um modelo de compreensão do mundo e do espaço urbano que tem uma única finalidade: o lucro, a mercantilização, a acumulação de capital, à revelia das pessoas, e do espaço.

Editor responsável por esta publicação coletivo editorial PISEAGRAMA
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