Supersuperfície: um modelo alternativo de vida na Terra

* O texto a seguir é parte de um projeto/roteiro para vídeo realizado pelo grupo de arquitetos italianos chamado Superstudio, entre 1971 e 1973. Em sua busca pelos ‘atos fundamentais’, o Superstudio mapeou alguns pontos sensíveis da relação entre a arquitetura e vida humana, os quais vinham sendo tensionados por um conjunto de projetos de conteúdo utópico desde a metade dos anos cinquenta (como a Nova Babilônia de Constant e o Cushicle do Archigram). Tendo mapeado esses pontos e os conteúdos utópicos dos projetos que os abordavam, o Superstudio elaborou imagens que os super-atrofiam, até a perda do contato com a vida presente e com a noção de tempo. Apresento o texto a seguir como uma introdução ao trabalho do grupo e a sua agenda de debates. [PM]

INTRODUÇÃO
A arquitetura permanece na borda de nossa vida, e intervém apenas a certa altura do processo, normalmente quando os hábitos já foram codificados, produzindo respostas para problemas rigidamente formulados. Mesmo se suas respostas são aberrantes ou evasivas, sua lógica de produção e consumo evita qualquer real ruptura. A arquitetura não apresenta nenhuma proposta alternativa, já que ela utiliza instrumentos perfeitamente regulados para evitar qualquer desvio. Assim, uma casa da classe trabalhadora está para uma luxuosa mansão da mesma forma que um arquiteto radical está para um arquiteto acadêmico ou reacionário: a única diferença está nas quantidades em jogo, as decisões sobre a qualidade de vida já foram tomadas. Ao aceitar esse papel, o arquiteto se torna cúmplice das maquinações do sistema. Então, o arquiteto de vanguarda interpreta um dos papéis mais rigidamente fixados (como aquele do ‘amante jovial’ nas peças de teatro).
Neste ponto, o arquiteto, reconhecendo em si mesmo e em seu trabalho conotações cosméticas, de poluição ambiental e de consolatrix afflictorum, realiza uma abrupta interrupção em seu bem pavimentado circuito. Torna-se então um ato de coerência, ou ao menos de salvação, concentrar-se na redefinição dos atos primordiais, e examinar, em primeira instância, as relações entre a arquitetura e esses atos.
Esta operação se torna uma terapia para remoção de todas as arquimanias.
Este ensaio de refundação antropológica e filosófica da arquitetura torna-se o centro de nosso processo redutivo.

I. VIDA

ou a Imagem Pública de Arquitetura Verdadeiramente Moderna. Supersuperfície: um modelo alternativo de vida na Terra

A arquitetura não é mais a mediação homem-ambiente traduzida na complexificação das necessidades, criando um panorama artificial e uma “segunda pobreza”, mas se torna um ciência-cruzada.
Através da colagem e da extrapolação de tendências de diferentes disciplinas (de técnicas de controle corporal à filosofia, de disciplinas de lógica, à medicina, à biônica, à geografia…) uma imagem-guia é visualizada: uma vida não mais baseada no trabalho (e no poder e violência ligados a ele), mas em relações humanas não-alienadas. É a última chance para a arquitetura atuar como “planejadora”. Ao estabelecer uma série de processos redutivos, nós podemos passar das necessidades induzidas às necessidades primordiais; tecnologia, concentrada apenas nisso, pode satisfazê-las dispensando o trabalho.
Nós podemos prever dois rumos de pesquisa: por um melhor emprego do corpo e mente humanos; pelo controle do ambiente sem os meios tri-dimensionais (novamente os processos redutivos) . A Terra, feita homogênea por uma grelha de energia e informação (ver “Educação” e “Morte”), torna-se o suporte natural para uma nova vida potencializada.

Um conto moral sobre o desaparecimento do Projeto*
O Projeto, já tendo sido perfeito e racional, avança para sintetizar diferentes realidade em síncreses e enfim se transforma, não saindo de si, mas escapando para dentro de si, em sua essência final de filosofia natural. Assim o Projeto coincide cada vez mais com a existência: não mais uma existência sob a proteção dos objetos projetados, mas a existência como projeto. Acabaram os tempos em que os utensílios geravam ideias e as ideias geravam utensílios: agora as ideias são utensílios. É com essas novas ferramentas que a vida se transforma livremente numa consciência cósmica.
Se os instrumentos de projeto se tornaram tão afiados como bisturis e tão sensíveis como um fio de prumo, nós podemos usá-los para uma delicada lobotomia. Assim, além das convulsões da sobre-produção, um estado de calma pode nascer, no qual um mundo sem produtos e recusas toma forma, uma região em que a mente é a fonte de energia e a matéria prima, além do produto final, o único objeto intangível de consumo. O projeto de uma região livre da poluição do projeto é muito similar ao projeto de um paraíso terrestre.

Segunda hipótese
A natureza é reduzida ao cultivo segundo os critérios de máximo aproveitamento funcional. O campo se torna progressivamente mais artificial e homogêneo. Cidades como Nova York constituem um exemplo didático da utilização funcional do território através de uma grelha cartesiana: a península de Manhattan desapareceu sob a ação unificadora do valor induzido.
Presentemente, o ambiente é controlado principalmente por meios físicos, tridimensionais (represas, canais, grandes áreas cobertas, microclimas).
A hipótese: controle do ambiente pela energia (correntes artificiais, barreiras térmicas, radiação, etc.). Rumo ao desaparecimento das membranas divisórias entre interior e exterior. A caverna e a fogueira na planície. Microclimas, grandes áreas, coberturas cada vez mais leves. Do hardware ao software. A Terra utilizada para grelha de serviços e comunicação. Uma cidade sem suportes 3D. Uma hipótese para uma grelha isotrópica e homogênea / Supersuperfície.



Supersuperfície: um modelo de uma atitude mental
Isso não é um modelo tridimensional de uma realidade que pode tomar forma concreta pela mera transposição de escala, mas a visualização de uma atitude crítica rumo (ou uma esperança de) uma atividade de projeto entendida como uma especulação filosófica, como uma forma de conhecimento, como um modo de conhecimento, como uma existência crítica.
Nós podemos imaginar uma rede de energia e informação que se estenda a cada área habitável. Vida sem trabalho, liberdade pela vontade, e um novo potencial humano são possibilitados por essa rede.
Peguemos, por exemplo, um vale (uma ótima zona habitável) e imaginar que estamos realizando uma série de operações homogeneizantes, similares ao cultivo atual. Vamos imaginar que nós instalamos uma grelha de transmissão de energia e informação em toda a área. Essa grelha cria uma situação de ‘campo total’ na qual qualquer ponto é descrito pela intersecção de uma linhas retas. Os pontos de encontro das linhas principais marcam os ‘pontos principais’ nos quais poderíamos imaginar um ‘plugue universal’.
A rede de energia pode assumir distintas configurações. A primeira é uma situação limite: o desenvolvimento linear. As outras incluem distintos desenvolvimentos planimétricos com a possibilidade de cobrir várias e crescentes partes de uma área. A tipologia dos ambientes depende apenas da porcentagem de área coberta, de forma análoga às diferenças entre uma rua e uma cidade e dela a uma metrópole.
Algumas tipologias:
10% de cobertura. A rede se desenvolve como um laço contínuo que se estende pelo território.
50% de cobertura. A rede se desenvolve como um tabuleiro de xadrez, com quadrados medindo 1km x 1km, alternados com quadrados de terra livre.
100% de cobertura. A rede é transformada em um desenvolvimento contínuo, cujos confins naturais são formados por montanhas, costa, rios…
Várias hipóteses para estratégias de sobrevivência:
Hipóteses de um sistema total de comunicações, software, memória central e terminais pessoais. Hipótese de uma rede de distribuição de energia, aclimatização sem paredes protetoras. Modelos matemáticos de uso cíclico do território, mudanças de população, funcionamento e não-funcionamento de redes… abrandar. No desenho, essa rede é representada pela superfície regular Cartesiana, a qual evidentemente não deve ser entendida no sentido físico, mas como uma metáfora visual-verbal para uma distribuição ordenada e racional dos recursos.
Nós podemos imaginar essa grelha invisível apenas com alguns pontos quase invisíveis na grama, mas imediatamente rastreáveis, os quais constituem os plugues universais. No desenho, esses plugues são visualizados como uma caixa mágica (caixa preta) à qual várias ferramentas sofisticadas e miniaturizadas podem ser conectadas. Através dessas ferramentas (o sonho dos eletro-eletrônicos), todos podem sintetizar os elementos necessários para sua existência. Um plugue universal para as necessidades primordiais.


O uso da supersuperfície. Alguns exemplos da vida real.
Às vezes, por alguns momentos eletrificantes, pode-se ver sob a superfície das águas de um lago, ou sob o gramado de uma planície, a grelha distinta da supersuperfície…

Limpeza da primavera
Não sobrou muito das antigas glórias, nem mesmo ruínas e colunas. No máximo, algum lixo patético, velhas cadeiras frouxas…
Os processos redutivos cobrem todas as esferas da ação: nós então vemos a passagem das necessidades induzidas às necessidades primordiais, da matéria à energia, dos objetos às ideias…

O domo invisível
Tudo que você tem de fazer é parar e ligar o plugue: o microclima desejado é criado imediatamente (temperatura, humidade etc.), você se pluga na rede de informação, você liga os misturadores de comida e de água…
A grama do seu vizinho deixou de ser mais verde que a sua…
Algumas imagens de diferentes tipologias com alguns relatos de fatos:
“Lugares em que a humanidade se concentra em grande número sempre se baseiam na rede urbana de energia e informação, com estruturas tridimensionais representando os valores do sistema. Em seu tempo livre, grandes multidões nas praias ou no campo são na verdade uma massa concentrada de pessoas servida por mini-serviços mecânicos e móveis (carros, rádios, refrigeradores portáteis). Concentrações como a Ilha de Wight ou Woodstock indicam a possiblidade de uma vida ‘urbana’ sem a emergência de estruturas tridimensionais como base.
A tendência à reunião e à dispersão espontânea de grandes multidões se torna mais e mais independente da existência de estruturas tridimensionais.
Livre Reunião e dispersão, nomadismo permanente, a escolha de relacionamentos interpessoais além de qualquer hierarquia pré-estabelecida são características que se tornam crescentemente evidentes em uma sociedade livre do trabalho. Essas tipologias de movimento podem ser consideradas como manifestações de processos intelectuais: a estrutura lógica de pensamento continuamente comparada (ou contrastada) com nossas motivações inconscientes. Nossas necessidades elementares podem ser satisfeitas por técnicas altamente sofisticadas (miniaturizadas). Uma maior habilidade de pensamento e o uso integral de nosso potencial psíquico serão então a fundação e a razão para uma vida livre de carência.
Favelas, drop-out cities, acampamentos, cortiços, tendopoles ou domos geométricos são expressões diferentes de um desejo análogo de tentar controlar o ambiente com os meios mais econômicos…”
O modelo constitui a seleção lógica dessas tendências em desenvolvimento: a eleminação de todas as estruturas formais, a transferência de toda a atividade de projeto para a esfera conceitual. Em substância, a rejeição da produção e do consumo e a rejeição do trabalho, são vistas como uma metáfora não-física.

O acampamento
Você pode estar onde quiser, levando contigo sua tribo ou família. Não há nenhuma necessidade de abrigo, já que as condições climáticas e os mecanismos do corpo foram modificados para garantir total conforto. No máximo nós podemos brincar de fazer um abrigo, ou ainda em casa, na arquitetura.
As distâncias entre homem e homem (modificado) as quais geram o modo pelo qual as pessoas se reúnem e então “os lugares”: se uma pessoa está só o lugar é uma pequena sala; se são duas pessoas juntas é uma sala maior; se são dez pessoas é uma escola; se são cem, um teatro; se mil, um auditório; se dez mil, uma cidade; se um milhão, uma metrópolis.
Nomadismo se torna a condição permanente: os movimentos individuais interagem, criando assim correntes contínuas. Os movimentos e migrações do indivíduo podem ser consideradas como reguladas por normas precisas, as distâncias entre indivíduos, atrações/reações, amor/ódio.
Assim como fluídos, os movimentos de uma parte afetam os movimentos do todo.

A ilha feliz
Uma senhora de nosso conhecimento ficou histérica ao ouvir essa história e disse: Eu certamente não estou disposta a viver sem meu aspirador de pó e meu cortador de grama, e o ferro de passar e a máquina de lavar roupa e a geladeira, e o vaso de flores, os livros, minhas jóias, bonecas e roupas.
Como você quiser, Madame! Leve o que você quiser, ou equipe uma ilha feliz para você com todos os seus bens. O único problema é que a maré baixou por todos os lados e a ilha está presa no meio de uma planície sem mensagens em garrafas.

A montanha distante
Olhe para a montanha distante… o que você vê?
É um lugar para visitar? Ou e apenas o limite do habitável? São ambas já que a contradição não existe mais, é apenas um caso de complementaridade.
Assim pensou uma Alice bastante adulta que pulava corda, bem devagar, apesar de não sentir calor ou cansaço.

Uma jornada de A para B
Não haverá mais necessidade de cidades e castelos.
Não haverá razão para estradas ou praças.
Cada ponto será igual a todos os outros (exceto por alguns desertos e montanhas que são inabitáveis de toda forma).
Assim, escolhendo um ponto aleatório no mapa, nós diremos: minha casa será aqui por três dias, dois meses, ou dez anos.
E nós partiremos para lá (vamos chamá-lo de B) sem provisões, carregando apenas objetos de que gostamos. A jornada de A para B pode ser longa ou curta. Em todo caso haverá uma constante mudança no viver a cada ponto da linha ideal entre A (partida) e B (chegada).
Não será, veja, apenas o transporte de matéria.
Esses serão os objetos que carregaremos conosco: algumas flores prensadas esquisitas, alguns videotapes, algumas fotos de família, um desenho num papel amassado, uma enorme faixa de grama e mato entrelaçada com velhos pedaços de materiais que já foram roupas em algum dia, um bom terno, um livro ruim.
Esses serão os objetos. Alguém irá levar consigo apenas um rebanho de animais como amigos. Por exemplo: um quarteto de Bremermusikanten, ou um cavalo, dois cães ou doze gatos, cinco cães e um bode. Outros ainda irão levar consigo apenas a memória, feita tão afiada e clara que se faz um objeto visível. Outros irão levar um braço levantado, punho cerrado. Alguém terá aprendido uma palavra mágica e irá carregá-la como uma mala ou uma bandeira.
CALMA, COMPREENSÃO, CONFIANÇA, CORAGEM, ENERGIA, ENTUSIASMO, BONDADE, GRATIDÃO, HARMONIA, PRAZER, AMOR, PACIÊNCIA, SERENIDADE, SIMPLICIDADE, VONTADE, SABEDORIA (esse é o jogo completo de cartas na “Técnica de Palavras Evocativas”, de Roberto Assagioli, M.D.).
Mas quase todos irão levar apenas a si mesmos de A para B, e um único objeto visível, por exemplo, um catálogo completo, como um enorme Catálogo do Mercado Postal.
O que nós faremos.
Nós ficaremos em silêncio para ouvir nossos próprios corpos, nós ouviremos o som do sangue em nossas orelhas, os leves estalidos de nossas juntas ou dentes, nós iremos examinar a textura da nossa pele, os padrões formados pelos pêlos em nosso corpo e em nossa cabeça. Nós escutaremos nossos corações e nossa respiração..
Nós nos assistiremos vivendo.
Nós faremos acrobacias musculares muito complexas.
Nós faremos acrobacias mentais muito complexas.
A mente irá cair em si para ler sua própria história.
Nós realizaremos fantásticas operações mentais.
Talvez nós possamos transmitir pensamentos e imagens, e assim um dia feliz em nossas mentes estará em comunicação com as mentes de todo o mundo.
Aquilo que hoje chamamos filosofia será a atividade física natural de nossas mentes, e simultaneamente filosofia, religião, amor, política, ciência…
Talvez os nomes dessas disciplinas se percam (e não será uma grande perda) quando todos estiverem presentes em essência em nossa mente. Nós seremos capazes de criar e transmitir visões e imagens, talvez até fazer pequenos objetos se moverem, por brincadeira.
Nós jogaremos maravilhosos jogos, jogos de habilidade e amor.
Nós iremos falar muito, para nós mesmos e para os outros.
Nós iremos olhar para o sol, as nuvens, as estrelas.
Nós iremos a lugares distantes, apenas para olhá-los e ouvi-los.
Algumas pessoas se tornarão grandes contadores de história: muitos irão se reunir para ouvi-los.
Alguns irão cantar e jogar.
Histórias, canções, música e dança serão as palavras que falamos e dizemos para nós mesmo.
Vida será a única arte ambiental”.

Superstudio, “I. Vida”, in: “VIDA EDUCAÇÃO CERIMÔNIA AMOR MORTE”, 1973, In: SCHAIK, Martin van e MACEL, Otakar, “Exit Utopia; Architectural Provocations 1956-76″, IHAAU-TU: Delft, 2005. [tradução livre: Paulo Miyada]

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