O urbanismo empresarial como última utopia

Num ciclo de “Projetos de cidades em debate”, Luanda parece ser a cidade que menos pode se expor a um debate. Não tanto pelo fragmentário que é seu projeto urbano, mas porque este se perde entre a permanência das práticas sociais da tradição e as oscilações de uma integração mundial acelerada e violenta. É desconcertante que Angola tenha se construído como país no quadro de uma dominação externa (que, por ser portuguesa, é sempre mais intrusa do que estrangeira) e que o ato mais radical de sua autonomia tenha sido um longo processo de autodestruição. A riqueza que hoje dá a Luanda um lugar na geopolítica global é mineral e fóssil, valor extraído de uma pré-história geológica que inverte os sinais possíveis de um progresso feito por homens: o fluxo de empresas e divisas internacionais aprofunda a desigualdade social e o ideário emancipador e marxista de sua independência se torna um resíduo indesejado. Numa cidade em que as forças do passado e do futuro se embaralham, a própria noção de projeto está desafiada.

O mediador do debate, Pedro Gadanho, se mostrou sensível a este desafio ao aproximar o projeto urbano da narrativa ficcional, em continuidade com a abordagem experimental da arquitetura que ele explora no projeto editorial “Beyond”. Nesta abordagem, Luanda seria uma cidade melhor apreendida pela literatura, pois é “uma realidade que se tornou mais estranha que a ficção”. Na expressão portuguesa que põe um signo de indeterminação em tudo, Pedro completa que, “se calhar”, a literatura vai mostrar que Luanda comporta “novas formas de criatividade” da vida urbana, adaptadas a “realidades extremas e muito complexas”. Para prolongar o tema sem precisar se prender à denúncia de iniqüidades sociais e econômicas, apresenta o vídeo “Buraka”, que exige “uma leitura mais ficcional das cidades”. Ao final, a leitura de um trecho de “Barroco Tropical”, de Agualusa, comprova a pertinência desta perspectiva, ainda que ela assuma o risco de que, para revelar Luanda, é preciso renunciar a qualquer explicação racional.

No fundo, é este mesmo risco que é assumido pelos debatedores Nilton Vargas e Leila Leite Hernandez, mesmo que  a partir de perspectivas invertidas.

A historiadora Leila Leite Hernandez se apóia na pesquisa acadêmica para recuperar a centralidade de Luanda no pólo africano de uma geografia comercial implantada na Atlântico pelo sistema colonial português, que a une há séculos ao Brasil. Nos dias de hoje, o crescimento disforme de Luanda, simultaneamente para favelas/musseques e para enclaves para ricos e estrangeiros, quebra o paradigma da “razoabilidade das diferenças” que atravessou o séc. XX para justificar a colonização, sem deixar também de dar indícios de uma “nova rede de atores” para uma cidade “que se inventa” desde a recente estabilização política de 2002.

Numa história de integração permanentemente conflituosa, Leila reconhece que “há uma ordem estabelecida dentro do caos de Luanda”, uma ordem indicada nos corpos dos angolanos registrados no vídeo exibido por Pedro Gadanho, que “expressam uma liberdade” inexistente no cotidiano das diferenças sociais. No entanto, esta ordem dificilmente se antevê na exposição do que a historiografia de Angola poderia oferecer de mais pertinente – a explicação dos ciclos internacionais que dominaram o país, da colonização à globalização. Leila Leite Hernandez chega a admitir então que é preciso “por um ponto de interrogação” em toda tentativa de abarcar a capital Luanda pela análise de ordem acadêmica, como se reconhecesse que tudo o que se pode explicar não serve para revelar o que Luanda é.

A perspectiva do engenheiro Nilton Vargas é invertida ao trazer como tema de debate, ao invés de uma formação histórica passada, um projeto urbano presente, denominado “Luanda merece seu carinho”, cuja implantação na cidade antiga de Luanda ele coordenou como parte de uma equipe da empreiteira brasileira Norberto Odebrecht (CNO). Como todo projeto urbano, “Luanda merece seu carinho” contém um ideal civilizatório pacífico e conciliador. No entanto, em nenhum momento de sua exposição o projeto deixou de se mostrar também como uma iniciativa empresarial de enfrentamento da realidade local, contra a qual opõe estratégias baseadas na mobilização e no otimismo para “construir algo que Luanda nunca foi”. Assim, o que ele pode explicar serve para revelar apenas o que Luanda não é.

O debate que se seguiu foi dirigido inevitavelmente por este projeto urbano, única afirmação impositiva, mesmo que no vocabulário pobre da propaganda, entre as complexas narrativas da ficção e da história que antes tentaram apresentar Luanda.

A fala de Nilton Vargas é menos abstrata já por se centrar na própria experiência profissional de um engenheiro especializado em atuar em realidades conflagradas na África e América Latina – o primeiro título de sua apresentação, descartado, chegou a ser “Memórias de um engenheiro”. A intenção declarada é dar “uma visão de dentro” da reconstrução da infra-estrutura de Angola pela empreiteira Odebrecht, na qual a ação mais importante seria substituir a “cultura de sobrevivência” angolana por uma “cultura do trabalho”, criar uma mentalidade baseada no planejamento e na previsibilidade onde “o caos urbano é total” e o regime de favor e clientela política sobrevive através do sistema de representação tribal dos sobas.

A apresentação do projeto seguiu o padrão das imagens “antes/depois” para valorizar obras de pavimentação, pintura e mobiliário. Entre as fotos publicitárias, a que chamava mais a atenção mostrava uma família nuclear: homem, mulher e duas crianças, bem vestidas e sorridentes num passeio público nivelado e polido. A realização que ela fazia de um imaginário convencional e assegurador era o completo oposto do vídeo caótico apresentado por Pedro Gadanho no início das apresentações.

A respeito deste imaginário, surgiram três intervenções marcantes.

A primeira, de Henry Eric Hernandez, mostrou um olhar atento a detalhes. Num dos jogos de imagens “antes/depois”, ele percebeu a substituição do nome de uma praça, que anteriormente se chamava “Revolução de Outubro”. O desaparecimento da homenagem socialista, atualmente um lugar comum, não poderia passar desapercebida por um cubano, seja qual for sua fidelidade política. Desde o primeiro dia da guerra civil angolana em 1975, forças militares cubanas foram diretamente responsáveis pela manutenção do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) no controle de Luanda e reverteram a seu favor o conflito contra os movimentos armados apoiados por Estados Unidos e África do Sul. Até 1991, mais de 400 mil civis cubanos integraram alguma missão de auxílio internacional em Angola. A única resposta possível ao incômodo desta memória abandonada foi dada por Leila Leite Hernandez: a identidade angolana perdeu seu projeto de novo homem socialista, que iria reunir uma nação internamente destruída. Por trás da atual revalorização de práticas tradicionais e regionais por parte do MPLA não há nem mesmo um “projeto cultural”.

A segunda intervenção partiu de Wellington Cançado, que desta vez apontou um problema para todas as fotos apresentadas por Nilton Vargas: o que as imagens corporativas, “que sempre são felizes”, acabam mostrando é menos uma visão internacional de cidade e mais a exportação de um modelo urbano tipicamente brasileiro, baseado na manutenção de desigualdades e na criação de espaços segregados. Neste sentido, é significativo que a empresa parceira da Odebrecht para a gestão do sistema de transporte em Luanda seja a Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), notória como impõe seus interesses sobre o transporte público de Belo Horizonte, onde controla com mão de ferro ônibus, taxis e transporte escolar em duplicidade com o planejamento viário e a aplicação de multas de trânsito.

A terceira intervenção relevante, de Graziela Kunsch, sumariza a crítica das imagens pela crítica do uso de uma única palavra – “utopia” – com a qual Nilton Vargas denota o objetivo final das obras da Odebrecht: “oferecer uma utopia” ao invés do projeto “algo tosco” encomendado pelo governo de Angola, sem preocupação estética e educativa e à prova de vandalismo. A pergunta é ainda mais pertinente porque o articulador desta utopia em Luanda é uma consultoria do arquiteto Jaime Lerner, ex-prefeito e principal divulgador do urbanismo de Curitiba, um urbanismo que se destaca não pela fantasia ou radicalidade das propostas urbanas, mas sim pelo que podem ter de conciliador e realista. É por isso que conseguem se materializar em programas de coleta voluntária de lixo e paradas de ônibus em policarbonato deixando ao mesmo tempo intocada a segregação urbana de Curitiba (1).

A resposta de Nilton Vargas é um desdobramento do sentido estranhamente utilitário que a palavra “utopia” ganha em seu projeto. Trata-se de fazer o transplante para Angola de um urbanismo clássico (na sua expressão, um padrão de urbanização “melhor que uma cidade européia”) justamente para confrontar o descrédito do próprio governo em relação a sua manutenção e conservação. Ao atacar a deficiência crônica na gestão dos espaços públicos, o novo padrão urbano obteria como resultado final a reversão da “baixa auto-estima da população”. Para ele, a ação politicamente mais relevante em Luanda é “criar instituições” que se aproveitem do grau de consciência política do angolano e da sua revolta difusa contra domínio estrangeiro no país, mesmo que isso signifique abandonar a memória do internacionalismo cubano e ou qualquer expressão de cidade que seja tensionada pela violência da formação histórica de Angola.

Assim, o argumento final de Nilton Vargas é um apelo não à utopia, mas à realidade do urbanismo empresarial, e aconteceu através de um convite para seus interlocutores “irem lá para ver o ganho de cidadania” provocado pelo projeto urbano que implantou na antiga “pérola do Atlântico”. Nada disso impediu que o convite fosse complementado pelo seguinte lapso de uma lógica segregacionista: “você vê lixo por toda parte, mas lá não”.

(1) No restrito âmbito acadêmico em que está confinado o questionamento de Curitiba como cidade-modelo do urbanismo contemporâneo, destaco as pesquisas de Ângela Seixas Pilotto (“Área metropolitana de Curitiba”, dissertação de mestrado – FAU/USP, São Paulo: 2010), Fernanda Ester Sanchez Garcia (“Curitiba imagem e mito”, dissertação de mestrado – IPPUR/UFRJ, Rio de Janeiro: 2001) e Nelson Rosário de Souza (“Planejamento urbano, saber e poder”, tese de doutorado – FFLCH/USP, São Paulo: 1999).

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