CEUs: potencialidades e contradições

O debate que ocorreu no Centro Cultural São Paulo em 23 de outubro em torno do projeto dos CEUs – Centros Educacionais Unificados – retomou o discurso que deu origem a estes equipamentos, trazendo à tona uma grande variedade de temas bastante polêmicos no que diz respeito à construção da cidade contemporânea. Com a abertura do mediador Adriano Carneiro de Mendonça, o debate foi encaminhado buscando trazer para o público a intencionalidade do projeto na sua escala de desenho urbano, por um lado, e de desenho de gestão, por outro. Alguns pressupostos já ficaram claros desde o início: a metrópole contemporânea, fruto do desenvolvimento capitalista, é fragmentária e “caótica”, materializando determinadas “irracionalidades” de tal sistema. A partir da visão do arquiteto-urbanista como agente de transformação, a proposta dos CEUs vem como programa (no sentido político mesmo de direcionamento e centralização): unificação do planejamento e estratégia pública de ação, sistema integrado racional contra o desordenamento generalizado. A idéia, portanto, de sistema urbano como possibilidade e estratégia de embate está no centro do debate.

Alexandre Delijaicov, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto dos CEUs dentro da Edif (no momento de construção dos CEUs, Departamento de Edificações da Prefeitura de São Paulo), fez a exposição principal. Sua apresentação foi focada na questão urbana: os CEUs seriam espécies de nós de rede que têm como princípio norteador um tripé, a saber, o projeto pedagógico, o projeto de gestão e o projeto de arquitetura. O primeiro se relaciona diretamente com o conceito de “cidade educadora” de Paulo Freire: a vida urbana cotidiana, com todas as suas complexidades e desafios, é uma escola que tem na prática social seu principal instrumento de educação. Desta maneira, a própria cidade é uma escola e, vice-versa, a escola se transforma em cidade. No âmbito da gestão, o desafio de centralizar num mesmo espaço vários equipamentos de secretarias diversas faria com que tais órgãos públicos precisassem necessariamente ter políticas conjuntas, racionalizando (através da centralização) a ação do Estado na periferia. Neste sentido, o projeto privilegia a construção de uma política de Estado, e não de Governo. O projeto de arquitetura, por sua vez, é a materialização destes pressupostos tendo em vista o desenho não limitado ao lote, mas sim como um pedaço de cidade, pólo gerador de transformação. Alexandre os caracterizou como a construção de “endereços públicos”: a criação de “lugares”[1] significativos na periferia homogênea como locais de identidade e construção coletiva, remetendo aos “condensadores sociais” do construtivismo russo.

Ao longo de sua apresentação, Alexandre frisou em vários momentos a importância de uma “visão humanista” face à realidade, que conseguisse, através da racionalidade de um programa, fazer frente às idiossincrasias do Estado e do Capital. Chamou a atenção para diversos pontos que se relacionavam a este embate: a situação dos rios urbanos, degradados e sem uso; a dificuldade do debate com certos usuários e administradores dos equipamentos; o embate com a mídia; as mudanças de projeto decorrentes de falta de entendimento de seu significado; as mudanças de cunho publicitário feitas pela gestão da então prefeita Marta Suplicy, entre outros aspectos. Nesta visão “humanista”, comandada pela razão, os aspectos qualitativos e relacionados ao uso do espaço urbano devem ser privilegiados em detrimentos aos aspectos quantitativos (comumente associados aos CEUs).

Adriano, no final da fala de Alexandre, apontou a importância, no projeto dos CEUs, do correto uso da escala. Segundo ele, tal projeto confrontaria, com o uso de uma escala “íntima”, a violência da metrópole homogênea e sem “lugar”. Ali estaria proposta uma relação específica entre a escala do bairro e da vizinhança, por um lado, e da cidade e da metrópole, por outro. Retomou o projeto dos CIEPs[2] que, assim como os CEUs, foram um desenvolvimento histórico possível das idéias de Anísio Teixeira para as Escolas Parque, Escola Classe da década de 1950. Dentro deste repertório, as escolas seriam um espaço urbano para além da fixidez dos horários da grade horária escolar básica, abrindo-se para a comunidade nos finais de semana e para atividades extra-curriculares dos alunos das escolas do bairro durante a semana. Ainda nesta vertente, Adriano trouxe a experiência de Nova Iguaçú, no Rio de Janeiro, que está com um projeto de “Bairro Escola”, no qual há convênios entre poder público municipal e entidades privadas para rearticulação de espaços ociosos. Nesta parceria, foi viabilizada a conversa inter-secretarial também proposta pelos CEUs sendo mediada por escritórios públicos que projetam praças na cidade.

O debate prosseguiu com intervenções da platéia e falas/respostas de Alexandre. Nestas, chamo atenção para alguns momentos, principalmente relacionados ao embate entre as demandas sociais concretas as quais o projeto irremediavelmente entra em contato e as suas formas de resposta. Um destes momentos foi o debate sobre a técnica construtiva, realizada de maneira tradicional, enquanto a primeira proposta era a pré-fabricação em fábricas públicas tal qual ocorrido na gestão Erundina com a organização de João Filgueiras Lima (o Lelé). Alexandre descreveu esta mudança como uma adequação à realidade da nossa periferia: com o desemprego instaurado, não fazia sentido a utilização de pouca mão de obra. Além disso, se o intuito era a apropriação do local pela comunidade, nada mais contra indicado do que o espetacular aparecimento de máquinas montadoras meio-alienígenas que “entregam” o equipamento já pronto. Neste sentido, há, segundo o arquiteto, uma adequação da utopia técnica em nome de uma constatação social, ou, segundo sua fala, “aproximações sucessivas”. Desenvolveremos esta questão adiante. Em outras falas, Alexandre continua defendendo o projeto construído dos CEUs como a realidade possível naquele momento: mesmo que muitas vezes podado, ele indica o sentido de superação urbana contemporânea, espaço de generosidade necessário em meio ao mar de mediocridade e pragmatismo das administrações. Nesta defesa, deixou de apresentar os inúmeros momentos de reversão da proposta original – as PES, Praças de Equipamentos Sociais – em nome de adequações mais ou menos racionais, qualitativas e “humanistas”.

Neste contexto, vale a pena um desenvolvimento mais aprofundado das inúmeras questões levantadas por tal projeto, que com certeza devem colaborar para a discussão acerca das possíveis transformações urbanas necessárias hoje – e, principalmente, seu direcionamento político[3]. Desta maneira, sigo com algumas questões levantadas a partir de pesquisa pessoal sobre o tema, algumas das quais foram levantadas no debate enquanto outras infelizmente não puderam ser expostas. Não há dúvida que o projeto dos CEUs se contrapõe ao main stream produzido atualmente, mostrando qualificações suficientes para uma leitura diferenciada do cenário no qual vivemos, que, por conta disso, por alguns instantes nos pareceu mais uno. A busca pelo entendimento mais aprofundado desta obra, portanto, faz-se necessária por esclarecer com mais luz caminhos para a produção da almejada arquitetura renovada e as causas de alguns dos seus fracassos.

Primeiramente, há que se justificar seu uso: para a produção pública, que aparentemente não produz mercadorias, mas sim coisas úteis à sociedade, esse é um ponto fundamental. Os CEUs têm como justificativa inicial o projeto pedagógico desenvolvido por Paulo Freire na gestão Luiza Erundina em São Paulo (1989/92), a chamada “cidade educadora”. Este projeto estava amarrado naquele momento com a redemocratização do país, buscando novos parâmetros para o ensino público. Segundo ele, a escola deveria deixar de ser um local de “empilhamento” de conhecimentos instrumentais – dirigidos para a formação da mão-de-obra barata das grandes cidades – e voltar-se para a dita “educação cidadã”. Nesta, a escola seria um espaço para a formação do novo cidadão, que cresceria com outra relação com a cidade, construindo um futuro democrático. Para tanto, o espaço físico e pedagógico da escola deveria ser transformado: ali tudo deveria se dar através da participação popular, e a escola se transformaria num centro urbano de referência para o bairro, explodindo seus limites de relação com a cidade. Os CEUs vêm então nesta direção: a renovação do espaço público urbano – no que isso tem de mais político – através da reconstrução dos espaços públicos da cidade. Daí seu programa ultrapassar os limites da “escola” – ele seria muito mais, segundo seus criadores[4], um “Centro de Equipamentos Urbanos”, ou ainda “Centro de Estruturação Urbana”.

Há de se lembrar, neste contexto, os limites ideológicos da dita “retomada da vida pública”[5]: qual seria sua possibilidade real, dentro dos limites que o próprio capitalismo impõe à sociabilidade entre os homens? Para usar as palavras de Adorno: “a esfera pública, este mito burguês…”. Ao definir o fetiche da mercadoria, Marx já indicava esta preocupação: sob o regime do capital, quando o valor de uso é abstraído do valor da mercadoria, todo trabalho humano se torna trabalho abstrato, ou seja, não interessa mais o quê é produzido, mas quanto é produzido – se todo trabalho produz valor, e todo valor é igualmente intercambiável, “a medida do dispêndio de força de trabalho do homem, por meio da sua duração, assume a grandeza de valor dos produtos de trabalho, finalmente, as relações entre os produtores, em que aquelas características sociais de seus trabalhos são ativadas, assumem a forma de uma relação social entre os produtos de trabalho”[6]. Sua sociabilidade, portanto, dado que a qualidade de seus trabalhos se iguala através do valor, se dá de forma reificada, através dos produtos de seu trabalho. Isso significa que o relacionamento inter-pessoal, humano, no qual estão baseadas todas as formas de organização social, é mediado pelas mercadorias, “coisas”, e não sentimentos, vontades, utilidades, e outras formas abstratas. O homem não é uma mercadoria, mas sua forma de sociabilidade se dá, no capitalismo, a partir dela, no momento em que sua função social está mais relacionada à quantidade do que à qualidade. Além disso, o “público” pressuporia, idealmente, iguais possibilidades de intervenção dos atores envolvidos. No capitalismo, esta situação não se realiza estruturalmente: ele necessita da diferenciação social – base social na qual os CEUs se originam.

A política – ou a esfera pública – encontra sérias barreiras nesta conjuntura, pois só é possível a sua existência no momento em que o sujeito político assume uma posição de ruptura na base do sistema, a esfera da produção, quando aparecem as relações qualitativas da sociabilidade. A face, portanto, aparente da justificativa de uso dos CEUs está imersa em ideologia no momento em que pressupõe a retomada de uma sociabilidade que não consegue acontecer na esfera do uso do equipamento. Quer dizer, o trabalhador, depois de ser explorado, espoliado, passar fome e necessidades das mais variadas para sustentar a lógica deste sistema, não consegue interferir nela a partir do “consumo” de um equipamento como os CEUs, produzido nesta mesma lógica. Pois este consumo se dá através da forma aparente do conjunto, ocultando toda a produção por detrás dele, esta sim responsável pela sub-vida do trabalhador, momento nefrálgico onde é possível ruptura. Momento onde o arquiteto atua, o que o torna responsável e potencial sujeito político. Mas seria a retomada da vida pública a justificativa de sua construção?

Esta é a justificativa já lambuzada de recortes ideológicos bem formatados para a aceitação da pequena burguesia bem formada. Para as camadas menos esclarecidas – e isso não indica apenas mais pobres, mas também menos culpadas socialmente, como a grande burguesia ou os políticos – a justificativa é claramente outra: a “inclusão social”, merchandise necessário em época de guerra. Não seria necessário aqui alongar demasiadamente a análise do cunho ideológico desta questão – que aparece mais uma vez, só que agora com pinceladas de cinismo[7] difíceis de contornar em grande escala, particularmente a publicitária[8]. O que é, afinal, a “inclusão social” nos termos de um Estado estreitamente vinculado aos interesses do capital – que, a partir do entendimento de Marx, tem a função de manutenção do sistema através de seu caráter regulador e repressor? Ela não se daria apenas na escala, novamente, aparente do sistema, ao não tocar na questão da propriedade, esta sim, fator imprescindível quando se quer a real equalização social? Ou ainda esta “inclusão” se daria nos termos de uma sociedade essencialmente desigual, onde só é possível via manutenção desta desigualdade – inclusão de pobres onde lhes cabe? Enfim, já é suficiente, para encerrar o assunto, a indicação de que o dito “petismo”, responsável por todo este novelo ideológico, já usa os mesmos termos da mais acirrada direita do país – que aliás não mede elogios aos CEUs, definitivamente uma unanimidade, ou melhor, mais um consenso “democrático”, o que quer que isso seja[9].

Para entender melhor a questão, entremos na sua produção. No caso de edifício – aparentemente – especial, por se tratar de produção “pública”, vale a pesquisa dos agentes envolvidos, um deles particularmente: o Estado.

O Estado tem o papel neste processo de dono do capital a ser investido no que poderia ser entendido aqui como o “puro valor de uso” urbano. Mais uma vez o engano, bem trabalhado no ocultamento: já são bem sabidos os instrumentos os quais ele se utiliza para exercer o que seria sua principal função, a de mediar os conflitos mantendo o sistema em um nível de tensão sustentável. Alguns dos quais poderiam ser citados na presente análise: os processos de valorização fundiária decorrentes de seus investimentos e a responsabilidade de arcar com os custos de reprodução da força de trabalho[10] (no caso dos CEUs, na educação, cultura e lazer principalmente). Neste último caso, a dita “inclusão social” mostra claramente seus laços ideológicos quando notamos que dentro de suas atribuições está a reprodução ampliada da mais-valia no momento em que toma para si a responsabilidade da reprodução da força de trabalho, retirando este custo do capital. Mais ainda: esses custos passam a ser travestidos de “direitos”, num país onde esta idéia é muito vaga pela não-formação de um Estado democrático. A formação da esfera pública através da estrutura de mando escravista, e depois como base fértil de comando do capital privado fez com que a idéia de “direitos” não fosse criada aqui, sendo estes entendidos como “dádivas”, generoso provimento de uma instituição – o Estado, o chefe, o feitor, o Senhor – de qualquer forma inalcançável[11]. E neste sentido os CEUs se encaixam perfeitamente, por razões que entenderemos a seguir.

Ainda nesta esfera de produção estatal, o projeto dos CEUs contou com a tentativa de uma produção privilegiada, que poderia reestruturar a forma de atuação deste mesmo Estado, bastante fracionário: a idéia de produção pública de arquitetura através de um escritório público de arquitetos, e a gestão integrada de um equipamento por diversas secretarias. A princípio, mais uma vez, o intuito é dos melhores, colocando em pauta formulações provocativas que colocam o sistema em cheque. No entanto estas formulações devem passar pelo crivo da estrutura maior, que não comporta demasiadas mudanças pela sua lógica de funcionamento. A começar pelo escritório público: dentro desta ordem, não seria possível pensar em produção social que resulte em puro valor de uso, como “o ar, o solo virgem, os gramados naturais, as matas não cultivadas”[12]. A produção pública, hoje, é mediada por interesses que vão para além da reconstrução da cidade em bases desvinculadas da reprodução do capital. E a solução de centralizar esta produção neste “escritório público” não interfere no direcionamento de suas obras, que é fechado e aprovado fora dali. A gestão intersecretarial, por sua vez, sofre do mesmo mal: sua impossibilidade de existência horizontal, como a proposta inicialmente, pela forma de organização do Estado. Neste, deixam de fazer sentido proposições desprovidas de retorno – econômico, ou estratégico. No caso dos CEUs, era extremamente necessário o acompanhamento próximo da área mais estratégica do governo: a Secretaria de Finanças, que levou o projeto em diante e o fez acontecer. Dentro deste cenário, uma gestão horizontal deixa de ser possível: o retorno estratégico deve ser liderado por uma secretaria. Deixa de importar a formulação adequada de um projeto em que várias secretarias são igualmente importantes. O retorno da imagem bem acabada da gestão precede esta formulação.

É necessário, neste aspecto, entender o papel dos CEUs. Primeiramente, através dos seus mecanismos de produção interna – que vão para além de sua aparência revolucionária. Surgem já deste cenário duas responsabilidades da obra em larga escala: a manutenção do sistema via discurso e práticas inclusivas e seu papel ideológico no ocultamento destes mecanismos de sustentação do capital. Além disso, não podemos esquecer do momento em que os CEUs são construção civil. Para a infelicidade dos arquitetos, neste momento a arquitetura também se faz presente. É ela a responsável por dar forma, organizar e materializar este programa, dando “propriedades corpóreas” a ele. E através disso concretiza as duas principais formas nas quais os CEUs se transformam mercadoria: na sua construção (quando é gerada mais-valia através do trabalho na obra para as empreiteiras) e na sua imagem (veiculada como propaganda da gestão de governo). Poderia a arquitetura conseguir inverter este cenário, inserindo uma voz dissensual[13] no processo que instituiria a política como meio de transformação possível?

A concepção dos CEUs caminhou nesta direção, ao repensar a forma de inserção da arquitetura na cidade. Com um programa nada modesto, eles pretendiam organizar a cidade em rede, através de equipamentos públicos e infra-estrutura. Retomavam, desta forma, o tema da cidade fluida, interconectada, com sua potencialidade enquanto urbanidade mais viva. No aspecto construtivo, a experiência do CEDEC através da arquiteta Mayumi de Souza Lima na gestão Luiza Erundina era bastante presente: a possibilidade da produção pública pensada racionalmente, com elementos pré-fabricados que alterariam sua lógica fracionária e aleatória. E, por fim, o uso deste equipamento como construção de pertencimento[14] na periferia, da construção do “lugar” através da apropriação coletiva de uma obra com significação simbólica de reorganização urbana. A partir de todas estas premissas, teríamos uma arquitetura que questionaria de frente a lógica de produção estatal e do capital, em relação à organização da cidade, suas prioridades, usos, produção e relação política entre os cidadãos.

Obviamente o poder deste discurso frente à lógica de organização do capital foi absolutamente nulo, transformando a obra acabada em um simulacro de uma sociedade consensual. Isso não significa apenas que ele foi apropriado: sua realização não seria possível se não fosse adequado a esta lógica. A começar pelo programa, ideologicamente inserido, inevitavelmente, no discurso da “inclusão social”, sem o qual não haveria justificativa para sua produção. E, claro, as conseqüências desta inversão não são desprezíveis. Na sua construção, como também não poderia deixar de ser, a possibilidade da produção de um canteiro de pré-fabricação público foi deixada de lado na medida em que a prioridade – de governo, ou melhor, de gestão – era o aparecimento rápido e eficiente de grandes equipamentos urbanos. Mais: como inserir as grandes construtoras – parceiros indispensáveis – em uma produção autônoma, preocupada com as questões “públicas” e de apropriação da população? Impensável. Dentro desta conjuntura, a possibilidade de construção de “pertencimento” fica bem distante, afora as questões já levantadas de inexistência do espaço público, manutenção da desigualdade de classes e de constituição de um Estado montado através de dádivas, não de direitos[15]. Mais ainda: no que consistiria este “pertencimento” na periferia, local de reprodução da força de trabalho para o capital, destituído de qualquer urbanidade, identidade, simbologia, individuação ou apropriação possível que se liberte do mundo da necessidade básica?

Todas estas “adequações” são expressas, primeiramente, na mudança de programa das PES[16] para os CEUs, fora a mudança publicitária do nome. A padronização do programa – desvinculando os equipamentos da realidade local (o que demonstra claramente a insignificância do uso e da preocupação com a formação de pertencimento) – vinculada à padronização formal de cunho espetacular são evidências de um interesse diverso do original. É este interesse, que, finalmente, demonstra mais claramente o caráter de mercadoria da obra produzida: ao se apropriar prioritariamente da imagem aparente do conjunto – bem calibrada por uma produção a toque de caixa, com grande movimentação de capital, a partir de toda a estrutura autoritária e ideológica já descrita – a gestão de governo consegue criar um consenso em torno de si invejável. Afinal, consegue manter o sistema e girar o capital da construção civil com a imagem mais límpida de “inclusão social”, reestruturação do espaço público e, finalmente, grandes outdoors publicitários por toda a cidade. Do valor transformador que o uso deste equipamento poderia vir a ter, restam poucas possibilidades na medida em que ele é limitado pela organização planejada e ordeira do Estado, mantida por uma produção que não abre brechas para qualquer voz dissensual, e que, portanto, tem poucas chances de transformação sistêmica. A partir daí, todas as transformações feitas no projeto original dos CEUs – principalmente em relação ao teatro (que de oficina passou a palco italiano[17]) e às implantações – parecem bastante lógicas dentro de um processo não voltado ao uso, mas a interesses próprios de reprodução do capital em vários níveis.

Daí a pergunta: esta é uma questão da arquitetura? Ao rever todo este processo percebe-se que a sua não-realização não se dá, aparentemente, por fatores intrínsecos a ela, mas sim estruturais ao sistema, ainda que seja ela a materializá-lo. A resposta poderia ser sim, a arquitetura não tem o privilégio da não-realização no capitalismo, onde qualquer atividade criadora que privilegie o uso à troca está fadada a este fim. Mas a pergunta poderia ser: mas esta arquitetura não colabora para a fácil apropriação do sistema, na medida em que se relaciona ingenuamente com ele? Na medida em que se baseia em fundamentações muito próximas do modus operandi deste mesmo sistema?

Os CEUs (enquanto projeto executado) não estariam dentro desta lógica ao propor uma arquitetura pautada num desenho forte, centralizado nas mãos de poucos técnicos (sem interferência da população), que pressupõe um uso transformador a partir do espaço dado? Sua potencialidade talvez estivesse nas proposições provocativas frente à lógica de reprodução do Poder Público, além de um entendimento diferenciado da inserção da arquitetura na cidade. A questão é: sua realização depende deste mesmo Poder Público, e em vez de criar uma tensão necessária para a realização dos aspectos mais fundamentais do projeto, ligados à sua produção (como a fábrica de pré-fabricados, a gestão pública horizontal, entre outros), o projeto é auto-suficiente para se realizar “espetacularmente” por si só, independente de tal requisito vir de cima para baixo. Assim, o argumento de que “tinha que fazer o projeto acontecer” perde um pouco a validade: o que tinha que acontecer era a existência dos equipamentos na cidade, para o consumo “transformador”, ou todo o seu processo de produção, onde as mudanças seriam mais estruturais? A segunda opção não estava colocada pela arquitetura dos CEUs, embora pudesse estar. E isso significaria, muito provavelmente, uma inviabilidade do projeto, pois ele não se realizaria dentro das condições do Poder Público, inserido na lógica do capital. Para “ter que acontecer”, por incrível que pareça, as mudanças não foram tão drásticas assim: já estava na arquitetura proposta os pontos fundamentais para sua realização dentro desta lógica.

Não estamos dizendo aqui que os CEUs são descartáveis, “assim, era melhor nem ter feito”. O que queremos frisar é que, da forma como foram realizados e concebidos não é possível atribuir a eles um caráter de arquitetura “transformadora” das formas de sociabilidade da sociedade em que vivemos, muito menos através de seu uso enquanto equipamento público. Para tanto, seria necessário ver o papel da arquitetura no capitalismo simplesmente na criação de espaços abertos ou a um uso que contribuísse para a superação do sistema. O papel da arquitetura é muito maior do que este, e isso já foi entendido em maior profundidade, seja pelos modernos – que a colocavam na linha de frente do desenvolvimento das forças produtivas –, seja por alguns de seus críticos – que a viam como produção social, movimentando capital e força de trabalho –, mas não pela nova geração, nascida pós-ditadura, mal formada e pouco combativa (não por opção própria, mas por estratagemas sutis mas fatais do capital).

No fim ao cabo, nos parece que esta maneira de pensar e fazer arquitetura dos CEUs não se realiza estruturalmente, sendo rapidamente usada para a manutenção e reprodução do sistema, como já demonstraram autores como Sérgio Ferro. Precisamos não esperar, mas produzir uma arquitetura que se diferencie destes aspectos, sem perder o desejo transformador. O papel dos arquitetos continua vivo na sociedade, onde ele interfere diretamente. Não se quer aqui demonstrar a inviabilidade da sua atuação, pelo contrário: potencializá-la na medida em que entende-se as formas pelas quais ela interfere no sistema. Para tanto, uma arquitetura dissensual, de ruptura, é necessária, colocando questionamentos não acordados pelo discurso único, só possível no nível da sua produção (canteiro, desenho, gestão, programa, financiamento, etc). Não se trata, portanto, de inviabilidade estrutural da arquitetura, mas de uma forma de pensá-la que não colabora com a construção da superação da estrutura do capital. Uma forma que defende o universalismo moderno em nome do “pertencimento”, praticamente descartando a realidade local; uma forma que ao mirar o futuro, esquece o presente e sua construção, que por sua vez depende de práticas cotidianas contra-hegemônicas para se realizar, um trabalho de uma escala menor, mais penetrante e disseminada nos vazios de poder estatal-capital do que aquela dos CEUs – que, inversamente, são os estandartes da presença deste poder, como a vigiar a periferia.

[1] A noção de “lugar” no debate arquitetônico foi especialmente profícua na década de 1960 entre os italianos, tendo como principal teórico o arquiteto Aldo Rossi. Como crítica direta à idéia de universalização moderna, o “lugar” retomava o sentido simbólico da arquitetura e sua responsabilidade na criação de significados urbanos que se relacionassem com a identidade entre sociedade, espaço e cultura.

[2] Centros Integrados de Educação Pública, realizados no Estado do Rio de Janeiro pela gestão Brizola entre 1983 e 86, com arquitetura de Oscar Niemeyer.

[3] A análise do projeto dos CEUs aqui colocada é baseada no Trabalho Final de Graduação (TFG) da autora, “CEUs: potencialidades e contradições”, apresentado na FAU-USP em Fevereiro de 2006 com orientação da Professora Vera Pallamin (com a participação na banca dos professores e arquitetos Alexandre Delijaicov e Luiz Recaman) para a obtenção do título de Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Disponível na biblioteca da FAU-USP em formato digital.

[4] Os arquitetos locados no EDIF (Departamento de Edificações, ligado à Secretaria de Infra-estrutura urbana e Obras da PMSP) Alexandre Delijaicov, André Takia e Wanderlei de Souza Lima.

[5] Largamente comentada por Otília Arantes (A ideologia do lugar público na arquitetura contemporânea; In: O lugar da arquitetura depois dos modernos; São Paulo, Edusp, 2000), Richard Sennett (O declínio do homem público; São Paulo, CIA das Letras, 1995), Jurgüen Habermas (Mudança estrutural da esfera pública – investigações quanto a uma categoria burguesa; Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984), entre outros.

[6] MARX, Karl. O Capital – Crítica da Economia Política. São Paulo, Editora Abril, 1983. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. Vol. 1, Livro primeiro, Tomo 1, pp. 71.

[7] Conceito trabalhado por Vladimir Safatle, em artigo para a Revista Margem Esquerda nº5, São Paulo, Boitempo Editorial, 2004, pp. 131: “[...] ao invés da tragédia de um sistema socioeconômico que a todo momento funcionava através do ocultamento do caráter fetichista de seus processos de determinação de valor em todas as esferas da vida social, tragédia de um sistema que não pode assumir aquilo que ele é realmente é ao fundar-se no recalcamento ideológico de seus pressupostos, teríamos o cinismo de práticas de poder capazes de: ‘revelar o segredo de seu funcionamento e continuar funcionando como tal’ ” (citação do autor de Slavoj Zizek, “Fétichisme et subjectivation interpassive”, In: Actuel Marx, nº34, 2003, pp.100). Grifo da autora.

[8] A escala publicitária, no caso dos CEUs, merece atenção não por ter se “apropriado” da idéia original do projeto (argumento de muitos colegas), mas por ser dado necessário para sua realização. Quer dizer, se o projeto não tivesse um cunho “espetacular” certamente não teria sido levado adiante, com gastos monumentais que não se justificam dentro da lógica das gestões públicas atuais, quer sejam elas de direita ou esquerda, a não ser que tenham um retorno estratégico importante para a gestão.

[9] Afora os comentários elogiosos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no Roda Viva, a construção de “novos CEUs” pela gestão da PMSP de José Serra, PSDB (agora Gilberto Kassab, PFL) demonstram seu “sucesso de vendas”, ao menos neste aspecto de retorno político – dado que este consenso não se dá em diversos outros aspectos.

[10] A “força de trabalho” é a única coisa que o trabalhador tem a oferecer para sobreviver, na medida em que não é proprietário dos meios de produção. Para que ela esteja sempre renovada, pronta para ser usada, é necessário que este trabalhador tenha alimentação, saúde, moradia, lazer, educação, etc. Estes elementos constituem, portanto, os “custos da reprodução da força de trabalho”, que fazem parte dos custos para a produção das mercadorias. O seu pagamento pode ser feito diretamente pelo capital – responsável direto na medida em que é o maior interessado – ou pelo Poder Público – que o fazendo retira estes custos do interior dos custos do capital. No caso de nenhum deles fazer este pagamento, é o próprio trabalhador que tem que arcar. Se ele não consegue, pauperiza-se cada vez mais, acabando por dar a sua vaga para outro com mais possibilidades.

[11] C.f. OLIVEIRA, Francisco, obra variada.

[12] Marx, Karl. O Capital: crise da economia política. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1983. Pp. 49.

[13] C.f. RANCIÉRE, Jacques. O Desentendimento: política e filosofia. São Paulo, Editora 34, 1996.

[14] C.f. GREGOTTI, Vittorio. Dentro l’Architettura. Torino, Bollati Boringhieri, 1991. Para Gregotti, o sentimento de “pertencimento” (appartenenza) é criado quando existe apropriação de determinada obra ou lugar no campo simbólico. Só através dele é que esta obra ou lugar tem significação para a cidade, possibilitando novas formas de uso. O pertencimento, desta forma, se realiza através da apropriação da população, dando identidade ao lugar.

[15] No momento em que é naturalizada a noção de que o responsável pela reprodução da força de trabalho é o próprio trabalhador, qualquer custeio da mesma seja pelo capital, seja pelo Poder Público, é entendido como “presente”, como uma “ajuda”, não como uma responsabilidade.

[16] “Praças de Equipamentos Sociais”, projeto original dos CEUs desenvolvido na gestão Luiza Erundina (1989/92), em que a idéia mote era ocupar grandes glebas públicas de forma conjunta, não fracionária, por diversas secretarias, dependendo da demanda de cada local da cidade, com conexões inclusive com a Habitação.

[17] O Teatro Oficina aqui denominado remete à sede atual do grupo de teatro Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, projetada pelos arquitetos Lina Bo Bardi e Edson Elito no bairro do Bexiga em São Paulo. Seu projeto transforma o espaço cênico e a relação entre atores e platéia, que ganham contornos mais flexíveis. Já o palco italiano tradicional separa uns dos outros, realçando e limitando seus papéis, além da focalização da cena teatral em apenas um ponto do espaço cênico.

Editor responsável por esta publicação paulo - u4
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Comentários

  1. bia goulart

    senti falta do perfil de quem assina o texto.
    quem é isa guerreiro?
    uma observação: o conceito de cidade educadora não é de Paulo Freire. Foi cunhado em barcelona, em 1990, por um grupo de pesquisadores de varias áreas que ciraram a associação internacional das cidades educadoras (AICE).
    Mas Paulo Freire sempre defendeu e chamou a atenção para o potencial educativo das cidades.
    Proponho retomarmos o debate sobre os CEUs “a partir das colocações da Isa concidando outras pessoas para a roda de conversa e e ampliando para a questão ” quais os espaços educativos que São Paulo deseja?q tal?

    sou super fã da urbania

    abçs a tod@s!

    Bia Goulart

    • grazi - u4

      olá bia, a isa é arquiteta formada pela FAU-USP com pesquisa sobre os CEUs e membro da Usina. de fato podemos incluir o perfil dos autores nos posts, valeu por esta e pelas outras sugestões. o debate precisa continuar sim!

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